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1959 - Pidjiguiti - 03/08/1959
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1969 Bissau - Rua do Comercio, em frente à Casa
Gouveia, à direita desta rua corre a Avenida Marginal (1) |
1969 Bissau - Avenida Marginal e Caís,
ao fundo a ilha do Rei (1) |
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1969 Bissau - À esquerda saída para a Avenida
Marginal, à direita instalações da marinha e dos
Fuzileiros, e Cais do Pijiguiti (1) |
1969 Bissau - Estátua do navegador Nuno Tristão, perto do cais, atrás dela
a Casa Gouveia (empresa do Grupo CUF) que praticamente controla todo o
comercio no território da Guiné, bem como as as
importações e as exportações (1) |
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A guerra faz sobressair o pior e o melhor que existe em nós, e falar sobre
torturas, assassínios, massacres, é falar dos momentos mais negros que acontecem
nas guerras, contudo alguns acontecimentos apesar de negativos, pela sua
importância simbólica e histórica não podem deixar de ser referidos, como é o
caso de Pidjiguiti, pois ele foi mais um factor que ajudou à activação de outros
eventos.
Esta crónica é importante, não só porque ajuda à compreender alguns dos
acontecimentos dramáticos que ocorreram no dia 3 de Agosto, como repõe a
verdade, demonstrando que o exercito não teve qualquer responsabilidade sobre as
mortes que ocorreram.
O furriel dos comandos Mário Dias, foi um dos homens que esteve presente, quando
o exército interveio em Pidjiguiti, e o seu testemunho é extremamente
elucidativo, pois permite perceber o papel do exército neste drama, e filtrar a
verdade dos acontecimentos.
Os acontecimentos do Pidjiguiti - texto de Mário Dias
“Muito se tem escrito e comentado sobre os acontecimentos que tiveram lugar no
cais do Pidjiguiti em 3 de Agosto de 1959. Eu estive lá. À época dos factos,
cumpria o serviço militar obrigatório, ainda como recruta (o Juramento de
Bandeira teve lugar uma semana depois, precisamente a 10 de Agosto).
Para melhor entendermos a greve e consequente revolta dos marinheiros, há que
recuar um pouco no tempo e no contexto em que se movimentava a actividade dos
marinheiros.
As principais casas comerciais da Guiné (vou designá-las pelo nome abreviado
como eram conhecidas, Casa Gouveia (CUF), NOSOCO, Eduardo Guedes, Ultramarina e
Barbosas & Comandita, tinham ao seu serviço frotas de lanchas - umas à vela e
outras a motor - que utilizavam no serviço de cabotagem transportando
mercadorias para os seus estabelecimentos comerciais e, no regresso, traziam
para Bissau os produtos da terra, principalmente mancarra e arroz. A maioria
deste tráfego era pelo rio Geba, até Bafatá e, para o Sul até Catió e Cacine.
Anualmente, essas empresas se reuniam para acordarem os salários a pagar aos
diversos elementos da tripulação das embarcações. Esse acordo tinha a finalidade
de ajustar o salário nas várias frotas, de forma a evitar concorrência no
engajamento do pessoal. É claro que, embora efectivamente todos os anos fossem
aumentados, os marinheiros não eram tidos nem achados nestas reuniões. Era comer
e calar à boa maneira da época. O mesmo se passava, aliás, em relação ao preço a
praticar anualmente na compra do amendoim (mancarra) e que era fixado por tabela
governamental, ouvidos os comerciantes. Os agricultores não era ouvidos nem
tinham voto na matéria.
Acordo estabelecido, as várias firmas comerciais começaram a pagar aos
marinheiros o novo salário. Porém, a Casa Gouveia não procedeu ao aumento e
continuou a pagar pela tabela do ano anterior. Passaram-se meses e os
marinheiros questionavam o gerente - na altura o ex-funcionário do quadro
administrativo Intendente Carreira - sem resultados e até com uma certa
sobranceria, tique que lhe deve ter ficado dos tempos de funcionário
administrativo. Com o descontentamento a aumentar e ânimos cada vez mais
exaltados se chegou à tristemente célebre tarde de 3 de Agosto de 1959.
E agora o relato dos acontecimentos por mim presenciados e conforme informações
na altura colhidas.
Nesse dia passou por Bissau, a caminho de Angola, uma alta entidade da Força
Aérea. Ocupava no governo, salvo erro, o cargo de Secretário de Estado de
Aeronáutica. Fosse qual fosse a sua função, a verdade é que tinha direito a
honras militares à sua chegada ao aeroporto. Não havendo outra tropa com
capacidades para tal missão, embora ainda recrutas e como tal impedidos
regulamentarmente de prestar guardas de honra, acabámos por ser nós a fazê-lo.
Bem limpos e engraxados, mauser com baioneta calada, luvas brancas, partiu a
Companhia de Recrutas para Bissalanca.
A cerimónia decorreu de forma brilhante (nós éramos um espanto!) e iniciámos o
regresso ao nosso quartel em Santa Luzia. Ao aproximarmo-nos da praça do
Império, comecei a reparar que muita gente se dirigia apressadamente, alguns até
corriam, em direcção ao rio. E, um pouco antes de atingida essa praça, fomos
interceptados pelo comandante da companhia, capitão Teixeira, que se dirigiu ao
oficial que comandava a coluna, tenente Vaz Serra, com quem esteve a conversar
por alguns momentos.
Retomada a marcha, ficámos todos surpresos por virarmos à direita em direcção ao
rio em vez de à esquerda para Santa Luzia. Conforme descíamos a avenida da
República víamos que algo devia estar a acontecer pois cada vez havia mais
pessoa aglomeradas e maior era a agitação que demonstravam. A certeza tive-a
quando, já perto da Casa Gouveia, vi, em cima de um camião que seguia para o
hospital, vários homens em grande exaltação. Um deles ficou-me na memória: de
pé, escorrendo sangue de um ombro, barafustava e agitava os braços, dava
punhadas no peito como um possesso. Impressionante! Ainda hoje, passados todos
estes anos, quando se fala destes acontecimentos do Pidjiguiti, é esta a imagem
que me ocorre.
Chegados ao local, vi uma considerável multidão nas imediações, os portões do
Pidjiguiti encerrados e uma força da PSP, constituída por pouco mais de uma
dezena de seguranças, como chamávamos aos polícias africanos, armados com
espingardas Lee Enfield 7,7 mm, enquadrados por 2 ou 3 graduados europeus.
Na altura já tinham terminado os tiros e encontravam-se apenas a conter a
multidão e a evitar que os marinheiros e trabalhadores do cais de lá saíssem em
direcção à Casa Gouveia. Fomos mandados apear das viaturas e só então nos deram
as indicações da nossa missão que foi, simplesmente, cercar os terrenos anexos
ao Pidjiguiti (no local onde mais tarde nasceram as Oficinas Navais e
instalações da Marinha e Fuzileiros) que na altura eram terrenos baldios.
Não
devíamos deixar ninguém sair por esse lado que não tinha vedação. Ainda vimos
alguns tentando fugir por aí, atravessando o lodo, mas desistiam ao ver o cordão
por nós ali formado.
Nós, militares intervenientes, não demos nenhum tiro.
Aliás, nem podíamos pois nem tínhamos munições. Como já referi estávamos a
regressar de uma guarda de honra quando fomos desviados para o local. Deve ter
sido bem caricata a nossa postura, de luvas brancas, num cenário daqueles.
Ali nos mantivemos, aproximadamente 30 minutos, até os ânimos acalmarem (era o
que se pretendia) e regressámos ao quartel.
Nos dias seguintes não se falava de outra coisa. Como não tinha assistido ao
início dos acontecimentos, fui perguntando aos que mais de perto o tinham
seguido e a versão generalizada era a seguinte:
Nessa tarde, mais uma vez, aproveitando a presença do gerente da Casa Gouveia no
local, os marinheiros e descarregadores pertencentes a essa firma comercial
reclamaram pelo aumento de salário que todas as outras empresas já estavam a
praticar.
- Casa Gouveia, nada. Então como é, senhor Intendente? - As coisas começaram a
azedar e teve que retirar apressadamente a bem da sua integridade física.
Chamou-se a polícia. Um subchefe que para lá se dirigiu, não sei se por falta de
tacto em situações como aquela ou porque a exaltação dos marinheiros e
trabalhadores era já considerável, foi agredido com um remo na cabeça e teve de
imediato que ser socorrido e levado para o hospital. Vieram reforços, já
armados, e como se organizava no cais um movimento em direcção à Casa Gouveia,
armados de remos, ferros e do que havia à mão com a intenção de tudo escavacar,
fecharam os portões para impedir a sua saída. Mesmo assim não desistiram e
começaram a galgar o portão e a vedação.
- Entretanto, o comandante militar, tenente-coronel Filipe Rodrigues, chegado ao
local inteirou-se da situação e, ao ver aquele grupo armado de remos, paus, etc.
a marchar agressivamente em direcção à Casa Gouveia, deu ordens aos polícias
para dispararem por ser a única forma de os deter.
- E foi assim que aconteceu. O resultado foram 16 mortos e não 50, ou até mais,
como já tenho visto escrito. Por mim, um que fosse já era demais. Mas, atendendo
às circunstâncias do momento, hoje questiono-me: que teria acontecido se não
tivesse sido travada aquela multidão da única forma que foi possível? Certamente
teríamos muita destruição e bastantes mais mortes a lamentar. E ter-se-ia gerado
uma espiral de violência de consequências muito mais graves.
Da narração destes tristes acontecimentos podemos realçar os seguintes factos:
- O PAIGC não esteve por detrás da ocorrência. Ela foi inteiramente da
responsabilidade dos marinheiros e trabalhadores do cais pertencentes à Casa
Gouveia, por motivos meramente laborais. Os marinheiros das outras empresas não
estiveram envolvidos, pelo menos no início dos acontecimentos. É possível que,
por solidariedade, alguns se lhes tenham juntado. O PAIGC aproveitou-se
inteligentemente deste movimento, como sempre fez - o que só nos merece
admiração - para conquistar mais uns tantos seguidores.
- Não se pode considerar o ocorrido como uma simples greve, conforme é
vulgarmente referido. Foi mais do que isso. Tendo começado por greve,
rapidamente se transformou numa revolta violenta cujas consequências são
difíceis de prever se não tivesse sido travada. Se a referida revolta era ou não
justificada, é-me difícil concluir. Sim, atendendo à injustiça de que estavam a
ser vítimas. Não, pelas proporções que lhe deram.
- Antes de concluir, parece-me que o termo massacre, aplicado aos acontecimentos
do Pidjiguiti, é um pouco exagerado, não por o número ser muito inferior aos 50
habitualmente referidos, mas porque o conceito que a palavra implica, se refere
à chacina indiscriminada, a uma carnificina injustificada do género descrito nos
livros de história como passar tudo a fio de espada.
- Com respeito aos massacres de populações balantas e beafadas na região de
Bambadinca nos primeiros anos de 60, referidos no blogue-fora-nada, embora não
os possa negar ou confirmar, tendo eu saído da Guiné em Fevereiro de 1966, nunca
deles ouvi falar o que é estranho pois, como se diz na Guiné, noba ka ta paga
cambança - aforismo com um sentido semelhante ao as notícias espalham-se
depressa. Numa terra como a Guiné onde tudo se sabia e comentava, é estranho que
nunca tivesse ouvido falar em tal acontecimento. Deve ter sido muito bem
ocultado.
- E já que estamos a tratar de massacres, assunto tão melindroso e de que
frequentemente acusam as nossas tropas, só tenho a dizer que durante toda a
guerra colonial a que assisti e em que participei (depois da Guiné tive uma
comissão em Moçambique e duas em Angola) massacres, massacres mesmo, na
verdadeira acepção da palavra, só conheci um: foi o perpetrado pela UPA (mais
tarde FNLA) no Norte de Angola em Março de 1961 sobre os fazendeiros brancos e
suas famílias bem como sobre os negros bailundos fiéis aos seus patrões. Mas
esses já estão esquecidos ou, convenientemente, nunca são referidos.” (2)
Publicado em 19/06/2006, e revisto em 21/07/2006 por Carlos Fortunato
(1) Fotos do furriel
Carlos Fortunato
(2) Fotos e Crónica do furriel comando Mário Dias.
O texto completo de onde foi retirado o extracto apresentado anteriormente, pode
ser encontrado no blog
http://blogueforanada.blogspot.com/ , nas páginas editadas a 14
Fevereiro 2006:
Guiné 63/74 - DXXXV: Pidjiguiti, 3 de Agosto de 1959: eu estive lá 14 Fevereiro
2006
Sobre o mesmo tema encontra neste blog outros textos, como:
Guiné 63/74 - DLVII: Antologia (36): o massacre do Pidjiguiti 17 Fevereiro 2006
Guiné 63/74 - DLXXV: Simbologia de Pindjiguiti na óptica libertária da
Guiné-Bissau (Leopoldo Amado) - I Parte 21 Fevereiro 2006
Guiné 63/74 - DLXXXVI: Simbologia de Pindjiguiti na óptica libertária da
Guiné-Bissau (Leopoldo Amado) - II Parte 24 Fevereiro 2006
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