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1446 - 2007 História da Guiné

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A conquista do Óio por Teixeira Pinto

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Pidjiguiti

1446 - A descoberta da Guiné por Nuno Tristão - Junho de 1446

 

   
  1969 Bissau - Estátua do navegador Nuno Tristão, perto do cais, atrás dela  a Casa Gouveia (empresa do Grupo CUF) que praticamente controlava todo o comercio no território da Guiné, bem como as  as importações e as exportações. Foi retirada após a independência, e a Casa Gouveia, transformada em Armazens do Povo (1)  

 

Transcrevemos a seguir algumas passagens do livro "Eis a Guiné", de Fernando Rogado Quintino, editado pela Sociedade de Geografia de Lisboa, em 1946, nas quais se revive a descoberta da Guiné, por Nuno Tristão, e a sua morte na realização desse feito.

 

“Mês de Junho de 1446...

 

Uma barca de quarenta toneladas, saída de Lagos, sulcava o Oceano, rumo ao Cabo Verde, na Costa da África. A sua tripulação era composta de vinte e quatro homens, capitaneados por Nuno Tristão, todos arrojados, afeitos ao mar e às artes náuticas.

 

Gil Eanes, anos antes, dobrara o Cabo Bojador, desfazendo a lenda do Mar Tenebroso.

 

A barca bordejava o reino dos «Jalofos» que Nuno Tristão conhecia nas três viagens anteriormente feitas. Sete portugueses tinham ali tombado, feridos com setas peçonhentas.

 

Na sua última Viagem, Nuno Tristão atingira já as proximidades do Cabo Verde; agora ele queria ir mais além, queria conhecer as regiões donde provinha o ouro, que os mercadores levavam a Huadem ( Importante centro comercial na Mauritânia, bastante conhecido na antiguidade ), e chegar mesmo, se pudesse, às terras do Prestes João.

 

Dobrado o Cabo Verde, numa manhã soalheira e calma, as águas tomaram a coloração verde-amarelada, denunciadora de funduras escassas. A barca entrara em zona desconhecida.

 

No horizonte, uma ou outra nuvem negra indicava um tempo incerto.

 

De repente, o vigia, do seu posto de observação, gritou:

—      Almadias à vista! (Pequena embarcação, com querena estreita, aguda na popa e na proa).

 

Imediatamente, todos se aprestaram para os momentos decisivos.

 

Alguns pontos negros distinguiam-se ao longe e outros pontos surgiram, logo depois, numa grande extensão, Um sentimento de receio, misturado com dúvida e assombro, invadia toda a tripulação. As almadias, assim reunidas, semelhavam uma frota gigantesca.

 

Mas seriam almadias? Se eram, pareciam imóveis.

 

Intrépido e resoluto, Nuno Tristão ordenou:

—      Avante!

 

Agora os pontos negros recordavam cabeças de «titans», emergindo das águas. A barca aproximou-se. Afinal, nem almadias, nem cabeças de «titans»: árvores, muitas árvores – um parque florestal ou meio do mar! (É um espectáculo surpreendente, a costa baixa da Guiné vista de bordo. Tufos de Verdura alinham-se no mar, figurando, ao observador distante, Verdadeiros monstros marinhos).

 

Até então, as plantas marinhas conhecidas não passavam de arbustos —ou pouco mais. Aquelas árvores, altas, enormes, gigantescas, eram uma novidade. Entre as maiores, outras mais pequenas cresciam em grande profusão. Por fim, uma Vegetação luxuriante, pletórica de seiva, se alinhou, definindo o recorte de uma terra baixa, com um pronunciado cheiro a maresia.

 

Ladeando a costa, os navegantes continuaram para o sul. De vez em quando, um intervalo na vegetação revelava a embocadura de um rio.

 

Dias depois, contornando duas ilhas (Ilhas de Pecixe e Jata), desenhou-se a foz de um rio largo (Estuário de Geba), tão largo que mais parecia um golfo. A barca entrou nele, aproveitando a maré favorável. No fundo do «golfo», vinham desaguar dois rios (no estuário de Geba, desaguam os rios Geba e Corubal). A barca meteu pelo da esquerda e, algumas milhas andadas, fundeou.

 

O sol despedia-se, tingindo as águas de fogo e dando ao arvoredo policromas tonalidades.

 

Ao longe ouvia-se o fragor nítido de trovões. No céu, poucas nuvens, mas toda a tripulação sentia a aproximação de mau tempo.

 

No lugar fundeado, o rio era estreito. Nuno Tristão achou melhor aguardar ali a tempestade que se avizinhava.

 

O estampido dos trovões era cada vez mais forte. A leste, o céu escurecera. Nuvens negras subiam vertiginosamente em arco. De súbito, um grosso traço de luz riscou as nuvens, seguindo-se-lhe um estrondo medonho, que se repercutiu em todas as direcções.

 

O arco de nuvens trazia no ventre outros arcos mais escuros (Faz-se no texto a descrição de um tornado, fenómeno meteorológico que se observa na Guiné no princípio e no fim da época das chuvas e que é acompanhado de ventos ciclónicos e fortes aguaceiros.).

 

Junto da barca, não soprava uma brisa. Toda a atmosfera se imobilizara. As árvores, na sua quietude, pareciam assustadas. Um bando de patos, em voo lépido, dirigia-se para o lado oposto ao donde vinha o temporal, ferindo o espaço com pios angustiosos. As faíscas e os trovões sucediam-se quase ininterruptamente.

 

A bordo, a tripulação atemorizada orava com fervor.

 

Começou a ouvir-se um rumor estranho, um roncar de monstros invisíveis. As árvores num instante agitaram-se violentamente. Um vento ciclónico varreu o céu, turbilhonando e revolvendo tudo. As palmeiras esguias vergavam, tanto mais recurvas quanto maiores eram as copas eriçadas: semelhavam braços estendidos ao céu, implorando clemência. Grossas bátegas de água caíam obliquamente.

 

Daí a um bocado, o vento parou, continuando, porém, a chover. Uma faísca, a cem metros da barca, carbonizou um «baobab» e um forte cheiro a enxofre espalhou-se pela atmosfera.

 

A tripulação orava, invocando os santos da sua devoção.

 

Durante uma hora, os aguaceiros fustigaram impiedosamente o arvoredo em volta. Por fim, o céu aclarou-se, anunciando o termo da borrasca.

 

O rio entrara na Vazante.

 

Noite alta, um novo fenómeno veio sobressaltar a tripulação. Uma ondulação rumorosa (Descreve-se no texto o fenómeno conhecido por macaréu, que se observa em alguns rios da África e da América), vindo de jusante, arrastou a barca, apesar de ancorada, atirando-a contra as margens. Sobre a vazante, estabeleceu-se uma corrente impetuosa em sentido contrário e, em quatro horas, o rio atingiu a preia-mar. Fenómeno assim nunca fora visto!

 

Nuno Tristão e os seus companheiros resolveram retroceder. Não fosse acontecer coisa ainda pior!

 

Todavia, novamente no «golfo», prosseguiram a viagem mais para o sul. Nesse mesmo dia, entre um ilhéu à direita e a costa à esquerda (Entre o ilhéu das Arcas e a costa existe um banco de areia, que é conhecido na colónia por Coroa e que na vazante
se deixa ver numa grande extensão.
), a barca encalhou e, com a vazante, ficou em seco. Na enchente, porém, safou-se sem dificuldade.

 

Dois dias mais tarde, deixando a estibordo um grupo de ilhas e ilhotas ( Ilhas que formam o arquipélago dos Bijagós), outro rio se avistou (Não está identificado o rio onde Nuno Tristão e os seus companheiros encontraram a morte. A um dos rios do sul se deu o seu nome, para glorificar o feito), onde Nuno Tristão desejou fazer um pequeno reconhecimento. Longe, muito longe, ouvia-se um tamborilar rítmico de festança. A barca penetrou, deslizando suavemente pela superfície mansa do rio e, a certa altura, fundeou.

 

Dois batéis foram lançados à água e neles entraram vinte e dois homens, incluindo Nuno Trístão. Impulsionados pelo movimento ordenado dos remos, depressa chegaram à margem, num ponto em que um tronco de árvore, caído ou lançado sobre a massa lodosa, servia para o desembarque. Perto, bem perto, os tambores rufavam em curtas e múltiplas sonoridades. Mangais cresciam por toda a margem, exalando olores pútridos. No lodo, alguns caranguejos espreitavam no rebordo dos seus esconderijos.

 

Alguém chamou a atenção para a outra margem. «Guinéus», de corpo negro e nu, luzindo ao sol, armados de arcos e setas, embarcavam apressadamente em seis almadias.

 

Soltavam gritos selvagens, revelando intenções de luta. Perante o seu grande número, os portugueses voltaram aos batéis e remaram com força para evitar que eles se assenhoreassem da barca. Estabeleceu-se, então, uma verdadeira disputa de velocidade.

 

Das almadias, os «Guinéus» lançavam setas peçonhentas, com ligeireza e mestria. Os portugueses, apesar de feridos, remando sempre, chegaram primeiro à barca, que logo levantou ferro e se fez ao largo.

 

Vinte homens faleceram dos ferimentos recebidos, incluindo Nuno Tristão. Os seus cadáveres foram lançados à água.

 

Apenas com quatro homens a bordo, decorridos três angustiosos meses, a barca alcançou as costas de Portugal.

 

Assim, com o sangue de vinte lusitanos, se escreveu uma nova página na História dos Descobrimentos.”


 

Publicado em 18/07/2007 por Carlos Fortunato

Transcrição de passagens do livro "Eis a Guiné", de Fernando Rogado Quintino, editado pela Sociedade de Geografia de Lisboa, em 1946

Fotos de Carlos Fortunato

 


 

 

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